Marcelo Queiroga defende “olhar para frente” e trabalho coletivo contra pandemia

Marcelo Queiroga defende “olhar para frente” e trabalho coletivo contra pandemia

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, se posicionou nesta quarta-feira (23) sobre o uso de remédios sem eficácia comprovada para tratamento e prevenção da Covid-19. Ele evitou condenar o uso do medicamento, defendeu a autonomia do médico e disse que é preciso “olhar para frente” e buscar o que “existe de comprovado”.
Mais cedo, o presidente Jair Bolsonaro anunciou a criação de comitê de combate à doença, e voltou a falar em “tratamento precoce” contra o coronavírus. Bolsonaro, que é defensor da cloroquina, citou que esse tema ficaria sob responsabilidade do novo ministro.
Na entrevista desta tarde, Queiroga foi questionado sobre se determinaria a revogação do protocolo do Ministério da Saúde que orienta o uso de remédios sem comprovação de eficácia contra a Covid. O novo ministro disse desconhecer a existência dessa indicação dentro pasta.
“Os protocolos clínicos são instituídos seguindo regras que estão postas na lei orgânica da saúde. No meu conhecimento, não existe nenhum protocolo no ministério ratificando uso de medicações” – Marcelo Queiroga
Entretanto, a sociedade médica da qual ele era presidente, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), foi citada como parceira do governo no anúncio das orientações sobre o uso da cloroquina e se ofereceu para fazer eletrocardiogramas para monitorar efeitos colaterais do uso nos pacientes. O documento apresentado pelo ministério apresenta dosagens e públicos.
À época, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, citou o “clamor” da sociedade” para defender a cloroquina. Apesar de ser tratado como um protocolo na avaliação de especialistas, já naquela época o ministério buscava negar essa nomenclatura e falava em “orientações”. Já o presidente Jair Bolsonaro usava a palavra protocolo, inclusive na ocasião em que fez a piada: “Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma tubaína”.
Sem entrar no mérito do jogo de palavras ou sem rever as tais “orientações”, Queiroga disse que, com relação a esses medicamentos, é preciso “olhar pra frente e buscar o que existe de comprovado”.
“Vamos olhar pra frente, vamos gerar luz, é isso que a nação precisa. Hoje vimos os três poderes reunidos, todos unidos para buscar uma solução que traga esperança para o nosso povo”, disse o ministro.
Ele explicou, entretanto, que o conhecimento científico “é dinâmico”.
“Ano passado, vimos que só ia para o hospital gente com falta de ar. Agora vemos que atender o pacientes precocemente e a autonomia do médico é milenar. A relação médico e paciente é caso a caso para ser decidida”.

Posicionamento de entidades
Na terça-feira (23), a Associação Médica Brasileira (AMB) divulgou nota para afirmar que uso de cloroquina e outros remédios sem eficácia contra Covid-19 deve ser banido.
O posicionamento encerra uma polêmica que envolvia a associação: no ano passado, ao lado da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e do Conselho Federal de Medicina (CFM), a AMB se posicionou entre as entidades médicas que ainda tinham posicionamentos neutros ou favoráveis ao direito dos médicos de escolher o tratamento para pacientes com Covid.
Procurado pelo G1, o CFM não divulgou novo posicionamento. Já a SBC reafirmou que não indica o tratamento e que a proposta de parceria com o ministério para realização de eletrocardiogramas não foi colocada em prática.
“Com a posição clara de não indicação, as prescrições acabaram diminuindo e havia também uma questão logística difícil, ao imaginar que os pacientes contaminados deveriam fazer eletrocardiogramas em ambulatórios, o que poderia aumentar a circulação de pacientes infectados”, informou a SBC em nota.